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O setor agropecuário diante de uma nova ordem global

Regúnaga e Bisang analisaram as mudanças no modelo de negócios do setor agropecuário, a inserção externa e as parcerias para gerar valor.

As mudanças no cenário global já impactam a estrutura produtiva do setor agropecuário, o modelo de negócios e a forma como as empresas se relacionam com os mercados, o Estado e os territórios. Esse novo mapa abre oportunidades para agregar valor, ampliar a inserção externa e gerar impacto nas regiões.

Esse foi o foco da palestra “Como geramos impacto no desenvolvimento regional?”, realizada no âmbito do Congresso Regional CREA da zona Centro, em setembro, em Potrero de los Funes, San Luis.

O evento contou com a participação de Marcelo Regúnaga, ex-secretário de Agricultura da Nação e referência em políticas agropecuárias, e de Roberto Bisang, economista e especialista em bioeconomia e desenvolvimento regional da UBA e do CONICET. A moderação ficou a cargo de Cristian Feldkamp, ​​ex-diretor executivo da CREA.

Mudanças na ordem global

Regúnaga apontou que uma das grandes mudanças dos últimos anos é a perda de peso da ordem multilateral surgida após a Segunda Guerra Mundial. Em seu lugar, as grandes potências podem alterar as condições do comércio com base em decisões políticas.

“Hoje, não é tão fácil recorrer a mecanismos de solução de controvérsias. Isso é uma ameaça e faz parte do cenário com o qual temos de conviver”, afirmou. A isso se somam os conflitos geopolíticos, que afetam os fluxos comerciais, geram barreiras e aumentam a incerteza.

Nesse contexto, a Argentina tem uma oportunidade devido à sua localização e à sua capacidade produtiva. “Estamos longe da maior parte dos conflitos bélicos e temos a grande oportunidade de abastecer um mundo que está desordenado”, afirmou. Também destacou a maior relevância da Ásia e o potencial da África como destino.

As mudanças climáticas acrescentam outra fonte de risco, e a segurança alimentar mantém um papel central. A América do Sul desempenhará um papel maior como exportadora líquida de alimentos para a Ásia e, em menor medida, para a África. A transição energética amplia o campo de atuação do setor agropecuário para além das commodities e dos alimentos.

O novo cenário obriga a rever algumas premissas. Durante muito tempo, presumiu-se que alcançar a competitividade bastava para acessar os mercados. “Hoje, é possível ser competitivo e, no entanto, não conseguir acessar um mercado porque, devido a decisões políticas, um país decide não permitir esse acesso”, alertou.

Juntamente com a eficiência, ganham peso os vínculos, as parcerias e a confiança. A pergunta sobre o que produzir também mudou. O volume continua sendo relevante, mas os mercados exigem qualidade, sanidade, certificação e rastreabilidade. “Hoje, as pessoas não querem qualquer alimento”, observou. Às perguntas sobre quanto, o que e como produzir, somaram-se o quem e o com quem.

Regúnaga sustentou que ainda não existe uma nova arquitetura global. “Estamos em uma tempestade e não sabemos para onde ela vai”, disse. Ainda assim, considerou difícil o retorno do modelo anterior. Qualidade, sanidade, propriedade intelectual e certificações figuram, por sua vez, entre os desafios para acessar mercados mais exigentes.

O novo mapa agroindustrial

Bisang afirmou que a mudança global também altera a estrutura produtiva do setor agropecuário. O mundo industrial atravessa uma revolução que desloca a manufatura tradicional e abre espaço para atividades ligadas à biologia, à energia e aos novos materiais. Entre os exemplos, citou o uso industrial do óleo de soja para produzir combustíveis sustentáveis ​​de aviação (SAF) e o avanço da química verde.

Esse processo traz novas demandas para o setor agropecuário. Na Argentina, a estrutura preexistente revela limitações, ao mesmo tempo em que o setor avançou sobre atividades industriais, com unidades de processamento de soja e grandes complexos industriais, como a Renova. Surgiu também um novo perfil empresarial no interior.

Bisang propôs pensar essa mudança a partir de uma figura diferente da do produtor tradicional: um empresário agrobioindustrial ou bioalimentar. “O capitão desse barco começa a se perguntar, em sua empresa, o que faz, como faz, onde e para quê, para além das imposições e das heranças”, afirmou.

A produção baseia-se em genética acumulada ao longo de 150 anos, terra, água e capital físico, financeiro e relacional, além das capacidades das pessoas. Sob essa ótica, categorias como setor primário, campo e indústria tornam-se cada vez menos úteis para explicar uma atividade que funciona por meio de uma rede de atores.

Dois terços das terras são arrendados, uma proporção semelhante dos trabalhos fica a cargo de prestadores de serviço e boa parte dos custos provém do setor industrial. “Isso configurou, nos últimos 20 anos, um campo em rede”, apontou Bisang.

Within that network, it identified approximately 30,000 agricultural contractors, nearly 250,000 producers, and 1,500 service, input, and agribusiness centers. Added to these are players linked to credit, grain origination, consumption, bioenergy, logistics, capital goods, and technology, as well as inputs such as enzymes, bacteria, and yeasts.

A questão é onde se posicionar para capturar mais valor. Bisang recorreu à chamada “curva do sorriso” para explicar que a produção retém uma parcela menor do valor final. Ele estimou que o produtor de trigo recebe entre 10% e 12% do valor de um quilo de pão. “Vale muito mais a pena integrar-se, posicionar-se perto do consumidor, porque é aí que está a maior renda”, afirmou.

Por fim, estimou-se entre 3,6 e 4,2 milhões de postos de trabalho ligados a essa rede, sobre uma base de 12 milhões de pessoas ocupadas. Esse efeito alcança a atividade comercial e de serviços das cidades vinculadas à produção agropecuária.

Mercado internacional: Como se inserir melhor

Para Regúnaga, o agronegócio argentino não pode ficar à margem das mudanças globais. O setor gera excedentes e sempre dependeu dos mercados externos. O desafio já não é apenas ganhar o mundo, mas definir onde se posicionar e com quem. “Não se pode ficar à deriva”, afirmou. Isso exige superar a visão voltada apenas para “dentro da porteira” e articular as escalas micro, meso e macro com uma estratégia comum entre os setores público e privado.

Regúnaga citou o caso da Austrália, cujo valor unitário médio das exportações agroalimentares atingiu 792 dólares por tonelada em 2025, frente aos 397 da Argentina. Parte dessa diferença está ligada a uma maior articulação público-privada para a promoção comercial, a agregação de valor e a busca por melhores preços.

Bisang concentrou-se em empresas que conseguiram se inserir no mercado global, apesar da instabilidade macroeconômica das últimas duas décadas. Ele mencionou experiências do interior ligadas ao amendoim e ao pistache, além dos casos de Virasoro e Las Lajitas, como exemplos de inserção externa com ancoragem territorial.

Regúnaga apontou dois caminhos para aumentar o valor das exportações. O primeiro consiste em reduzir a diferença de preços dos produtos que o país já vende, com base em qualidade, certificações, rastreabilidade e melhores condições de acesso. O segundo visa reduzir a diferença na composição da cesta de produtos, com uma maior participação de itens de maior valor unitário.

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